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a literatura afro-brasileira como ferramenta de combate à intolerância religiosa


É assustador saber que ainda precisamos lidar com casos de intolerância religiosa no Brasil. Ainda mais horripilante identificar que muitos desses casos aconteceram em contextos escolares.

Entre os múltiplos casos, cada vez mais comuns nas escolas, o mais recente a ganhar destaque na mídia foi o caso em que a mãe de um estudantefoi impedida de ingressar na escola do filho por estar usando fio decontas, as guias usadas no pescoço pelos adeptos da umbanda e do candomblé.

Somos um país múltiplo em todos os aspectos: culturas, etnias, fés... E ainda assim há quem acha que uma religião deve se sobrepor sobre outra, baseado em crendices, uma vez que a Constituição Federal de 2018 prevê a laicidade do Estado.

A escola tem, por obrigação, incutir valores que transformem a realidade para algo positivo. Ela, portanto, tem a obrigação de adotar medidas que combatam a intolerância religiosa.

Mas que medidas podem ser adotadas para promover a pluralidade de credos em sala de aula. Podemos citar, principalmente, uma medida que é prevista em lei. O ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil sempre foi lembrado nas aulas de História com o tema da escravidão negra africana. No presente texto pretendemos esboçar uma reflexão acerca da Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.

Como estudantes de Língua Portuguesa e suas Literaturas, uma possibilidade de abordar temas que ajudem no combate à intolerâcia religiosa seria abordar os heróis e os seres mitológicos da África, que aqui chegaram trazidos pelos negros escravizados sob o nome de orixás.

O tema pode gerar controvérsia dentro da administração escolar, mas cabe ao professor adotar uma atitude contundente e firme diante da direção. Cabe a ele ser o intelectual transformador e driblar o sistema em prol de um bem maior.

É importante frisar que os orixás são heróis, seres, míticos ou não, que são tratados como divindades dentro das religões de matriz africana no Brasil – e em outros países da América Latina. E que, para além de fenômenos religiosos, eles fazem parte de todo um contexto cultural histórico e literário.

Os mitos dos orixás trazem reis, rainhas, fadas, magos, bruxas, heróis e todo o tipo de personagem comum em qualquer novela de cavalaria. O que mudam são os cenários (África) e os aspectos físicos dos personagens (a pele negra). Infelizmente, no entanto, tais mitos pouco são tratados na literatura tradicional das universidades. Mas há quem tenha registrado as histórias contadas pelos escravos, passadas de geração para geração em templos, entre eles, o fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Fatumbi Verger e o sociólogo da USP Reginaldo Prandi.

Há ainda outros autores que documentaram as lendas africanas. Portanto, é importante que o professor se detenha a esta literatura e que a usa como uma potencial ferramenta de combate ao ódio na escolas.

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